Que profissional é este que precisa de um dia ao ano?
Como se resolvesse todas as curas em 24 horas.
Recebo muitas lembranças, é verdade.
Mas, quero poucos agradecimentos.
Um paciente propôs, em um minuto de consulta, que o médico devia cobrar uma primeira consulta cara (o que, para ele, gira em torno de 500 ou 600 reais) só para fazer diagnóstico e, depois, fazer uma taxa de manutenção, baratinha (o que, para ele gira em torno de 90 reais). Não, eu não ri. Fiquei séria e, acreditem (!), pensei na lógica desta idéia.
Como ele é da área de exatas, cobra por projeto. Imaginei que ele pudesse estar pensando na saúde humana como a colocação de uma viga, para não cair.
Um médico para se formar, na área básica, precisa de 3.153.600 minutos.
Ainda tem mais 3 ou 4 anos (1.576.800 ou 2.102.400 minutos) de especialização.
Plantões de 24 horas, pelo menos 1 vez por semana, durante os 2 últimos anos da Universidade. Não tendo sábados, domingos ou feriados. Às vezes, um de 12 horas, durante a semana também, à noite, claro.
Decidindo pelo mestrado, mais 1.051.200 minutos e, se decide pelo doutorado, mais 2.102.400 minutos.
No meio disso tudo, desde a formação básica até sempre, pelo menos 2 a 3 congressos de 2 a 3 dias por ano. Todo ano, se quiser estar minimamente por dentro de sua área. Atualmente, o médico que se preocupa com a atualização, estuda, em média 2h por dia, depois (ou antes) de seu dia de trabalho, numa jornada que dura, em atendimento, uma média de 8 a 10 horas ao dia, fora o tempo de se deslocar aos vários locais de trabalho. Sim, vários. No mínimo, dois. E se tiver procedimentos cirúrugicos, tudo pode demorar ainda mais…
Não falemos dos convênios que pagam 50 reais pela hora médica, valor fixo. Esqueçamos que isto existe e que são a grande maioria (sim, você fez a conta certa, 40 horas semanais = 2000 reais ao mês!). Se credenciado em uma excelente medicina de grupo, o que poucos são, ganham, em média, 20 a 30 reais por consulta, pagos a cada 45 dias. Não, não é CLT. Dão notas fiscais. Retire 13,33% de impostos, DARF, etc, etc, etc… E se atendem no local da seguradora, pagam um comodato de 20 a 30% sobre seu total dos ganhos. No mínimo já estamos sem 33,33% do valor recebido. Geralmente, trabalham por produtividade, atendendo cerca de 3 pacientes por hora, o que muitos convênios acham pouco, e encaixam mais 2 pacientes neste tempo. A tabela de referência indica um valor mínimo pela consulta médica de 42 reais. Então, sem direitos a férias reembolsadas, 13º., sem vale transporte ou vale refeição, cesta básica, auxilio creche e, ganhando abaixo do valor mínimo estipulado no mercado, por que este profissional se submete a isso?
E a parte acadêmica? A historinha é quase a mesma: nas universidades públicas não consegue ser contratado em dedicação exclusiva, tampouco em dedicação parcial, fica atendendo nos ambulatórios como amigo-da-escola, sempre fazendo uma pesquisa ou um trabalho – com uma infinidade de nomes, na hora da publicação – sem receber salário ou incentivos. Em algumas universidades privadas, oferecem 33 reais pela hora aula, sim (!) você pensou certo, para ensinar alguém a ser médico não se consegue o valor da categoria de doutorado, mesmo tendo o título (mostram uma tabela, tirada de algum lugar 58 reais e pagam 33…, no mínimo incoerente?). Mas, por que este profissional se submete a isto?
Não, não é pelo sacerdócio. Medicina não é sacerdócio, é profissão. E profissão envolve realização pessoal, além do dinheiro.
Sim, são as escolhas da vida.
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