A magreza a todo custo, um corpo esguio ao extremo, a silhueta mais que perfeita são alguns valores que muitos relacionam com a beleza e o sucesso, sem considerar o impacto psicológico que isso gera nas pessoas. Atualmente, o medo exagerado de engordar é um dos fatores que levam cada vez mais jovens e adolescentes, entre 12 e 20 anos, a desenvolver distúrbios alimentares, como anorexia nervosa e bulimia nervosa, e estes em 90% dos casos, atingem pacientes do sexo feminino. É muito comum nós, profissionais da saúde, que trabalhamos com a obesidade, recebermos pacientes com uma relação peso/altura (índice de massa corporal) absolutamente adequada enxergando-se, e pior, sentindo-se obesas. A beleza, embora um conceito diferente, está exposto e aceito em tudo que envolve aparência física. Será que existem culpados para esta situação?
Quando culpamos a mídia…
Sempre colocamos em pauta a questão da mídia explorar a felicidade dependente de um corpo perfeito. Em todas as páginas de revistas, meninas-mulher “ossudas”, divulgadas sem um grama a mais de gordura, com as roupas mais fantásticas. E, para as “mortais”, mulheres não-modelos, mulheres do dia a dia, que arraigaram este conceito tão popular, isto se torna um ideal que, muitas vezes, é simplesmente inatingível. Uma empresa de cosméticos encomendou uma pesquisa de comportamento, realizada em 10 países com três mil mulheres, antes do lançamento de uma de suas campanhas publicitárias. Segundo a pesquisa, somente 2% das mulheres pesquisadas se auto definem como sendo bonitas, 75% das mulheres definem sua beleza como sendo mediana e 50% entendem que seu peso esta acima do ideal. Dois por cento de estar bem COMPLETAMENTE com sua imagem e em relação ao seu corpo é uma porcentagem bem baixa! E vai além: dois terços das mulheres no mundo, de quinze a sessenta anos, evitam atividades básicas da vida porque se sentem mal com sua aparência. Mais de 92% das garotas declaram que querem mudar pelo menos um aspecto de sua aparência. Nossos olhos já se acostumaram a ver determinados padrões e não “toleram” o “a mais”… Uma modelo, fora do pouco peso que lhe é esperado, com uma saliência num vestido de gala, seria, certamente, um motivo de críticas. Você criticaria?
O que falta para que os meios de comunicação em massa possam modificar os padrões de beleza, já tão magros, altos e tão aceitos dentro de cada um de nós? Nós aceitaríamos uma ampliação destes conceitos? Revitalizaríamos a beleza como sensações e emoções de generosidade, auto-realização, bondade, dignidade, recuperação da auto-estima além do que é belo na forma física?
Quando culpamos os profissionais da saúde…
Muitos que procuram os profissionais da saúde querem perder peso. Querem a “fórmula mágica”, o caminho mais fácil, não abrir mão de absolutamente nada em sua rotina e… ainda assim, emagrecer. A primeira consideração é que: isso não é emagrecer. É “ser emagrecido”. E não funciona, infelizmente.
Emagrecer é atitude e esta frase deveria ser a máxima de todos os consultórios.Atitude de mudar, de melhorar, de superar-se. Ou mais: atitude em aceitar-se como se é. Sendo assim, como vêem, emagrecer é um conjunto de ações que dependem de DOIS lados. O da equipe da saúde e o do paciente. Ao profissional, cabe informar e orientar, dentro do que é ético, qual é o melhor caminho. Este caminho não é fácil. E a culpa do profissional da saúde existe quando ele passa a ser conivente e permissivo com as “exigências” dos pacientes…Não é fácil, para o paciente, colher exames periodicamente, para excluir qualquer causa endócrina da obesidade. Mas também é desgastante para o seu médico, explicar, toda vez, que você não necessita de remédio para emagrecer, quando você pede “aquela fórmula igual a da amiga magra”, já que não há indicação. Não é fácil concentrar-se em seguir a reeducação alimentar 100% das vezes. E é difícil para sua nutricionista explicar que os abusos eventualmente podem existir, mas que você siga as substituições. Que a monotonia de sua dieta, já que não fez compra ou esqueceu os lanches intermediários, não pode ser resolvida por ela. Não é fácil “arrumar” um tempo na agenda para a atividade física regular. E igualmente difícil é para o seu preparador físico mudar seu treino ou forçar nos exercícios, se você não tem tempo para realizar regularmente atividade física e nem cumprir o que lhe foi proposto. Não é fácil não deixar a ansiedade pelo comer, naquele momento de estresse, dominá-lo. Mas é muito difícil, para o seu terapeuta, fazê-lo entender que não é ele que lhe dará a solução para o controle de sua própria vida.
Quando culpamos a nós mesmas…
Por que é tão fácil falar que todos podemos ser bonitos como somos naturalmente, que a beleza está dentro de cada um de nós, e tão difícil de executar atitudes que contribuam para esta beleza? Atualmente é muito clara a importância excessiva pela aparência, a ponto de distorcer a auto-imagem. Valorizar somente o que não gosta em si mesma é passar a não se gostar. Com isso, a vida social fica menos ativa, a personalidade reprimida e o humor deprimido. Muitas vezes, o comer passa a ser a saída para frustrações imediatas e, antagonicamente, uma punição quase que imediata também, já que ajuda a ganhar o peso, o grande vilão dos padrões estéticos magros. Quantas calorias iam sendo ingeridas em chocolates e bolachas recheadas, ao longo da tarde e, após toda a “esbórnia”, a infelicidade de não ter conseguido resistir a isto? E quantas vezes isso ocorre, após a bronca do chefe, após um dia massacrante, após o trânsito de matar? O consolo vem em forma de alimentos ricos em açúcares e gordura, um prêmio pelas situações tão difíceis? É hora para pensar se este desgaste vale a pena. A melhor forma de lidar com isso é procurar ajuda profissional ao perceber esse exagero. Reconhecer que ser belo é ser você mesmo em seu melhor estilo, independente de seu peso a mais, de seu cabelo não tão liso, de suas rugas na testa sem “botox”, é a libertação da sua melhor parte, do que você pode ter de melhor. Ser belo é poder ser você e ainda assim determinar que você pode melhorar. E conseguir. Eu aconselho, sejam sempre belos, em sua melhor beleza!