Uma vez ouvi o Dalai Lama dizer que se quisermos alcançar felicidade genuína, a contenção interior é indispensável.
Num primeiro momento, não entendi a frase e, quando achei que havia compreendido, discordei. Em meus argumentos, contenção era algo preso, sem liberdade, era algo que deveria sair com fúria e emperrava. E eu, como ser falante que sou, contenção interior remetia, quase que de imediato, ao cartaz de silêncio que via nos hospitais. Shhhhhhhhhhhh!
E ele continuava seu discurso com a palavra sö pa. No português, até era caricato. So-pa. Sö pa, em tibetano, tem na sua tradução literal “ser capaz de suportar”. Em sua tradução corriqueira, “paciência”. Ao mesmo tempo, nesta língua, esta palavra encerra a noção de resolução e de coragem. E como a paciência - ou mesmo, no mais certo significado, ”a capacidade de suportar”, que, para mim, era tão delicada e sem ação, poderia transformar-se na força para resistir aos sofrimentos?
Precisei de uma lição.
Encontrei há 2 anos uma senhora que veio para emagrecer. Como tantas outras, excetuando-se que já sabia que estava com um doença degenerativa do nervo óptico e tinha uma dificuldade visual. Perguntava da dieta, do exercício físico e examinava, perguntava vagamente do tratamento dos olhos, mas ela sempre me elogiava com delicadeza ao final da consulta. “Parece que o cabelo está de uma cor nova, doutora?”, e saia com seus quilos a menos, com seu sorriso a mais.
E foi assim, até o dia da alta, quando avisei que seu peso era exemplar, e ela não me elogiou. E retruquei: “vai de alta, e não diz um nada?”, com uma boca grande feito a de um sapo. Ela virou e sorriu, como sempre. “Não dá doutora, hoje já está difícil de enxergá-la tão bem.” Isso era sö pa. Ela só falava o que sentia. Era paciente com a sua condição, já que não havia nada a fazer para evitá-la.
E eu fiquei com uma raiva louca de não perceber que ela não via, há muito, a minha imagem, ela me escutava e me elogiava pelo o que eu falava! E muito mais, pelo que ela ouvia daquilo que eu falava. E nas vozes que formavam a sua vida tirava a força para continuar enxergando além da razão física, além dos prejuízos de sua doença.
Foi aí que entendi, como o autocontrole e a coragem diante da adversidade podem conferir serenidade, promover a sensação de não se deixar perturbar e serem um antídoto poderoso a todo ressentimento e contra toda a passividade em aceitar sentimentos negativos.
Verdadeiramente, contive interiormente a frase “…sö pa é a fonte do perdão. E é o que há de melhor para preservar nossa consideração pelos outros, não importa como se comportem conosco”, e fui feliz.