Procurava o que leva uma pessoa a se encher de desculpas.
O “desculpeiro” não se dá conta de seus enganos, de suas desculpas. E vai acreditando nelas de forma tão fiel e tão arraigada, que, sem crítica, passa a vivê-las intensamente, mesmo que elas ainda tenham a toda a pinta de “desculpas esfarrapadas”.
Desculpas pelo comer errado e não mudar. Desculpas pelo não se exercitar, e, de novo, não mudar. Desculpas por não admitir que vive um mundo seu, de lautas desculpas e não mudar. E vai se desculpando pela vida afora, achando que engana alguém, tendo a certeza de que não se engana, mas nada muda.
E as desculpas são muitas: a falta de tempo, o trabalho excessivo, a falta de vontade, o cansaço de tudo, o trânsito de São Paulo, a doença que nem sequer existe, um relacionamento que é questionável, a mãe que não ajuda, o marido que só critica, o chefe que cobra muito, a meta que tem a cumprir. Sem falar naqueles que só lamuriam o que foi dele antes das desculpas… Antes delas era outra pessoa: tinha muitos quilos a menos, fazia atividade esportiva e fumava, podia beber e comer de tudo, dormia o sono dos justos, e nem se lembra que, nesta época, também não se desculpava tanto.
O “desculpeiro” é aquele que, ao seu lado, sempre aponta os seus erros e tem uma saída justificável para os erros dele. E a saída, por mais absurda que seja para todos os outros que o rodeiam, é a única que ele se permite adquirir e aceitar. E não importa que TODOS desaprovem, ele se mantém seguro naquela “desculpinha” íntima, no seu pretexto confortável e imóvel, que tanto lhe acalanta.
O “desculpeiro” se atém com a análise da vida alheia (afinal, atenua o tempo para repensar em sua própria…), é aquele que constrói empreendimentos vultuosos e completa com o “se” pudesse ter efetuado aquele projeto engavetado; ter tido tempo de fazer coisas diferentes das que faz… “se” tivesse oportunidades dadas a outrem; é aquele que se vangloria de ser “impublicável”, de ser expectador do cotidiano, de não concretizar nenhuma das possibilidades da sua “caixinha de surpresas”.
O “desculpeiro” profissional é aquele que assiste a vida passar. E ela passa mesmo. E passa rápido.
Aconselho aos que são atropelados pelas suas desculpas, que parem já! E peçam para que não tenham mais nenhuma justificativa que atenue a sua culpa, que absolva a sua realidade e que perdoe seu jeito de ser.
Aliás, pedir é sempre a maneira mais eficaz de merecer.
E atentem que ” até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” (Clarice Lispector)
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