Postado por: glau30 | 9 Junho, 2008

A saúde da mãe vale ouro

Depois de longos e tenebrosos congressos, retorno ao blog. E escrevo com saudade de quem lê e com vontade de dizer como a saúde está doente.

Aliás, só tem mesmo uma Saúde com “S” maiúsculo quem tem muito (mas muito mesmo!) dinheiro.

 

Tristemente tive que pernoitar nestas últimas semanas num hospital. Afinal, mãe é única e a minha, muito mais que única. Durona.

Minha excursão chegou as três da manhã nas portas de um (dos dois) hotéis, melhor dizendo, hospitais de luxo de São Paulo. E ela gemia mesmo, era de dor. Era claro que não me identifiquei com todas as patentes para o meu colega, médico ortopedista que deu o primeiro atendimento. Achei que seria deselegante e desnecessário. Ledo engano. Ela fez seu primeiro exame de imagem, depois de eu muito insistir e após uma punção naquele joelho doente,  procedimento que ele acidentou – às seis horas. O plantão troca somente às sete, mas já as seis ninguém mais fazia nada. Era a “pré- passagem” do plantão. Às nove ela ainda estava deitada na maca do pronto atendimento, agora já sem a roupa (nem aquele “aventalzinho chinfrim” que eles oferecem…) porque a auxiliar de enfermagem (com todo mal humor que podia) colocou a comadre de forma errada e deixou a roupa toda se molhar com urina. E, eu vi minha mãe chorar, de vergonha e dor, pela primeira vez nesta internação.

 

Depois de vários telefonemas, para os que realmente mandam ali, conseguimos um quarto.

Na enfermaria, a indecência prosseguiu. Era comprimido que caia no chão e era oferecido à minha mãe, e quando ela perguntou se era tomar MESMO ASSIM, a auxiliar de enfermagem disse que “ia dar uma lavadinha, então…”. Então? Então o que? É trágico e cômico.

A morfina em dose tão alta que ela apresentou todos os sintomas colaterais, a demora para adicionar o antibiótico num quadro claramente infeccioso: afinal, acho eu, com apenas 11 anos de formação, um joelho com pus…é mais do que sugestivo. Colegas que escreviam no prontuário: “paciente poliqueixosa e deprimida” e sequer a examinavam. E como não estar assim? Já eram, nessas alturas, cinco dias de internação, quatro equipes diferentes palpitando na prescrição… e a paciente sem saber o que tem!

Eu a vi chorar disfarçadamente outras várias vezes, e, à noite, quando eu chegava exausta de cada dia de trabalho, perguntava intimamente se eu havia - algum momento daquele dia - tratado algum paciente com esta falta de consideração. Que bom que a minha resposta era não. Eu tirava o jaleco médico e fazia o outro papel tão importante da minha vida: ser filha da minha mãe.

 

Passava o creme hidratante em todo seu corpo, contando sobre o meu dia, pedia um lanchinho e dividia com ela meu jantar, minhas novidades e suas angústias por estar doente, e de como isso é um desamparo quando se é mal atendido. Acompanhava-a ao banheiro, de andador, alguma ajuda na escovação dos dentes e no último “xixi”, antes de acomodá-la para dormir.

Quando a luz se apagava, eu ouvia o sussurro baixinho das orações que ela rezava, agradecendo. Agradecendo tudo o que passou e como ela superava com grandeza cada dor, cada médico, cada erro.

E pude acalmar meu coração quando soube, nestes dias, reconhecer aquela mãe de muito tempo atrás. Cheia de otimismo e fé, acreditando que todo dia poderia ir para casa, exceto quando me via com a mochila para dormir com ela. Nem por isso se abatia, via a outra alegria: de compartilharmos momentos só nossos naquele quarto.

 

Geneticamente sou assim, com vontade de que tudo acabe bem, vejo que herdei dela.

Agora, os honorários destes colegas ficaram muito mais caros do que eles mereciam, do que nós imaginamos e cobram pela estampa deste “hotel” de doentes. Uma desatenção sobretaxada. Ainda sei que quase todos, neste “mundinho da saúde cheio de glitter” tem seu preço. Para estas, temos MASTERCARD.

Acredito só nas pessoas que não tem preço. Para estas outras, todo o ouro do mundo. E elas só cobram seu preço justo. Nada mais.

 

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