Meu gato Benedito adoeceu muito. Ele me acompanha desde o primeiro mês de faculdade. Foi roubado da área de experiências, enfiado forçadamente no bolso do jaleco, raptado para eu ter companhia.
São 17 anos de parceria com altos e baixos, pulos e miados.
Mas, sempre aí. Passou por namoros, casamentos, decepções.
Encontrou amigos, paixões, amor.
Reparei hoje, durante a cirurgia para retirar uma parte do seu intestino, que ele estava magro, de pêlo branco, desdentado. O Dito está velho. O Dito está cansado. E firme, agüentou mais uma, recusando-se a dar espaço para o não continuar.
E eu também, cada dia mais.
Resolvi repensar em tudo o que passamos juntos. E vi que nos relacionamos, dia a dia, com o envelhecer. Num momento de minha vida, imaginei que nunca me defrontaria com o poder da velhice. E justamente hoje, de frente prô meu gato velho, que vi que a velhice é o período dos resultados. E nesta hora, fantasiei sobre o Dito pensando, por um instante, se a sua vida foi plena de realizações. Uma certeza que, somente quem fica velho, sabe que tem dentro do seu coração. Não há ninguém no mundo capaz de responder pelo outro.
Cada velho, que responde com o sorriso das experiências, diz sim as satisfações, diz sim a felicidade do final. E, quem vive a felicidade do final, terá, certamente, só boas lembranças do viver.
Extrapolei o pensamento aos que me estão próximos e são velhos. Também aos que estão velhos. Percebam, há diferenças.
E me vi muito ansiosa em relação à morte, o que é inevitável.
Vivo com a saúde, procuro curar tudo o que me desafia no consultório. Mas, na vida, a velhice não tem cura. E o envelhecer com dignidade reflete aceitar mais essa.
Aprenderei, com o tempo, e com o sábio Mestre Ikeda, que o ciclo da vida e da morte é comparado ao despertar e dormir. Queremos um “sono repousante após um dia cheio de atividades. A morte pode ser vista como um agradável período de descanso e renovação de energias, para que se abra um novo ciclo de vida ativa”.
Durmam todos bem, despertem melhores.
Sonho com você, Dito, meu velho vira-lata.