Acabou Beijing. Acabou mais uma olimpíada. E com ela, lá se vão todas as dores e alegrias ou, simplesmente, a oportunidade de superar seus medos, superar seus esforços, superar-se inteiro.
Fixei meu olhar no queniano, medalha de ouro na maratona. Prova impossível esta. Prova que eu mesma, já sonhei terminar. Franzino, baixa estatura, de olhos bem assustados e quase cabisbaixos, ele subiu ao pódio. Recebeu a medalha e, quando a tocou pela primeira vez, abriu o seu melhor sorriso. E só chorou quando o hino de seu país tocou, mas não deixou as lágrimas rolarem. Poderia imaginar o que se passava dentro daquele corpo cansado, medalha de ouro. Ouvi comentários que ele mora atrás do Kilimanjaro. E corria 11 Km para chegar em sua escola, todos os dias – ida e volta – meia maratona.
Meia maratona para realizar outro sonho: o de estudar. O de querer ser alguém diferenciado do que ele via lá daquele seu lado. Correu para isso.
Na verdade, só por isso, ele já deveria ter recebido uma outra medalha de ouro. Aliás, talvez a medalha mais valiosa que ele tenha é a que não se materializou em Beijing.
Fazer a diferença, sendo único, valorizando-se é, por si, uma medalha de ouro.
Todas as vezes que eu ouvia um comentário de alguém, brasileiro, pago para falar na TV: “que triste, medalha de prata/bronze para o Brasil”, ou “desta vez não deu ouro”, ficava indignada. Um desrespeito aos que traziam o orgulho de nosso país, tantas vezes sem patrocínio ou tendo que se submeter a treinos fora daqui para ter qualidade e dignidade no esporte. Bronze é sim uma medalha. Prata é sim um mérito. Demérito é ficar criticando e não pedir apoio financeiro ao esporte no país!
Nossa formação não é a dos esportes. É a do samba, do carnaval, de gente pelada e ídolos fazendo “bafão” em motéis ou vídeos do You Tube.Vale mais alguém sonhar, no futuro, com um filho seu como garanhão, bem sucedido com muito dinheiro no bolso, do que incentivá-lo a tocar um instrumento ou fazer um esporte QUALQUER, que ele escolha, sem ser futebol…
A descoberta de nossas escolhas próprias e o comprometimento com elas é que nos dá força para a superação. É o que constrói, em nosso interior, a energia que nos move à vitória em nosso trabalho, a conquista de quem amamos, aos nossos caprichos e dificuldades que precisam ser vencidos. A graça em ser o que queremos ser, depende de sermos, inicialmente, o que podemos ser.
Refaçamos nossa olimpíada individual todos os dias, não vamos esperar mais quatro anos, até Londres. Tempos melhores, gente melhor. Vencer é todo dia. Sejamos corajosos em receber uma medalha de ouro por dia. Para isso, aprendamos a importância em ganhar também o bronze, a prata, nos dando a chance de saber mais a cada derrota. É sempre bom ter alguém melhor, para que possamos entender que não deveremos NUNCA, pretensiosamente, achar que somos os melhores. Olhando ao nosso redor, veremos quantos são os tolos que querem só ganhar. Os campeões, humildemente, querem é terminar a prova.