Recebi hoje, em meu e-mail, a carta mais linda que já li. Embora linda, ela vinha de um amor não completamente correspondido, de um coração partido.
Em cada palavra um juramento de vida e, logo após cada vírgula, um adeus.
Ela se desenvolve totalmente ambígua, e, no final, já tão desiludida, termina como começou, sem saber o que fazer com aquele imenso amor.
Eu reli inúmeras vezes, na tentativa de resolver aquele impasse.
Não. Eu não poderia. E foram se passando os minutos, na frente do teclado, até que eu pudesse ter a coragem de escrever: “let it be”. Apaguei. Reescrevi.
A emoção em receber a carta é bem inferior a de quem manda. A surpresa é maior, posso garantir. E perguntava como, depois de tanto tempo, escreveu sentimentos em palavras? Será que eles terão a mesma força escritos do que sentidos?
O tempo passa para sentimentos, mas as palavras são, virtualmente, eternas.
Não digo que deixamos de amar ou esquecemos as pessoas já amadas, não, isso nunca. Mas elas vão tomando um lugar no escurinho, lá no fundo, daquele coração que bateu mais ávido por esta carta, há muito mais tempo.
Todos sabemos qual é nosso limite. Não conseguimos empregá-lo sempre. Porque o amor é ilimitado, e, as palavras das cartas de amor são soltas, desprovidas da formalidade, sem a vergonha de serem elas mesmas.
E, por menos românticos que sejamos, lemos sempre até o final.
E nós as guardamos, naquele lugar secreto, para lermos mais e mais vezes; para nos sentirmos verdadeiramente queridos, para lembrarmos desta “massagem no ego”, para acreditarmos que teremos chance de recuperar este momento de felicidade sempre que quisermos.
Como já disse, eu nada podia contra aquele coração partido.
Eu não tinha forças para avisar sobre o sofrer por amor, sobre desiludir-se e sair ileso, sobre amar e não ser amado.
O que me restou foi um silêncio fúnebre. Não respondi.
E na falta de palavras, o que sei é que falta emoção pertinente àquela situação.
“Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão”
(Fernando Pessoa)