Publicado por: glau30 | 16 Outubro, 2008

Dia do Médico

Que profissional é este que precisa de um dia ao ano?

Como se resolvesse todas as curas em 24 horas.

Recebo muitas lembranças, é verdade.

Mas, quero poucos agradecimentos.

 

Um paciente propôs, em um minuto de consulta, que o médico devia cobrar uma primeira consulta cara (o que, para ele, gira em torno de 500 ou 600 reais) só para fazer diagnóstico e, depois, fazer uma taxa de manutenção, baratinha (o que, para ele gira em torno de 90 reais). Não, eu não ri. Fiquei séria e, acreditem (!), pensei na lógica desta idéia.

Como ele é da área de exatas, cobra por projeto. Imaginei que ele pudesse estar pensando na saúde humana como a colocação de uma viga, para não cair.

 

Um médico para se formar, na área básica, precisa de 3.153.600 minutos.

Ainda tem mais 3 ou 4 anos (1.576.800 ou 2.102.400 minutos) de especialização.

Plantões de 24 horas, pelo menos 1 vez por semana, durante os 2 últimos anos da Universidade. Não tendo sábados, domingos ou feriados. Às vezes, um de 12 horas, durante a semana também, à noite, claro.

 

Decidindo pelo mestrado, mais 1.051.200 minutos e, se decide pelo doutorado, mais 2.102.400 minutos.

No meio disso tudo, desde a formação básica até sempre, pelo menos 2 a 3 congressos de 2 a 3 dias por ano. Todo ano, se quiser estar minimamente por dentro de sua área. Atualmente, o médico que se preocupa com a atualização, estuda, em média 2h por dia, depois (ou antes) de seu dia de trabalho, numa jornada que dura, em atendimento, uma média de 8 a 10 horas ao dia, fora o tempo de se deslocar aos vários locais de trabalho. Sim, vários. No mínimo, dois. E se tiver procedimentos cirúrugicos, tudo pode demorar ainda mais…

 

Não falemos dos convênios que pagam 50 reais pela hora médica, valor fixo. Esqueçamos que isto existe e que são a grande maioria (sim, você fez a conta certa, 40 horas semanais = 2000 reais ao mês!). Se credenciado em uma excelente medicina de grupo, o que poucos são, ganham, em média, 20 a 30 reais por consulta, pagos a cada 45 dias. Não, não é CLT. Dão notas fiscais. Retire 13,33% de impostos, DARF, etc, etc, etc… E se atendem no local da seguradora, pagam um comodato de 20 a 30% sobre seu total dos ganhos. No mínimo já estamos sem 33,33% do valor recebido. Geralmente, trabalham por produtividade, atendendo cerca de 3 pacientes por hora, o que muitos convênios acham pouco, e encaixam mais 2 pacientes neste tempo.  A tabela de referência indica um valor mínimo pela consulta médica de 42 reais. Então, sem direitos a férias reembolsadas, 13º., sem vale transporte ou vale refeição, cesta básica, auxilio creche e, ganhando abaixo do valor mínimo estipulado no mercado, por que este profissional se submete a isso?

 

E a parte acadêmica? A historinha é quase a mesma: nas universidades públicas não consegue ser contratado em dedicação exclusiva, tampouco em dedicação parcial, fica atendendo nos ambulatórios como amigo-da-escola, sempre fazendo uma pesquisa ou um trabalho – com uma infinidade de nomes, na hora da publicação – sem receber salário ou incentivos.  Em algumas universidades privadas, oferecem 33 reais pela hora aula, sim (!) você pensou certo, para ensinar alguém a ser médico não se consegue o valor da categoria de doutorado, mesmo tendo o título (mostram uma tabela, tirada de algum lugar 58 reais e pagam 33…, no mínimo incoerente?). Mas, por que este profissional se submete a isto?

 

Não, não é pelo sacerdócio. Medicina não é sacerdócio, é profissão. E profissão envolve realização pessoal, além do dinheiro.

Sim, são as escolhas da vida.

O médico se submete a isso porque precisa ajudar alguém para se realizar. Então, a resposta mais simples é: o médico se submete a isto pelo paciente, e por ele mesmo. De novo. É por você, se você for paciente.

 

Pense quando se queixar do preço de uma consulta. Pense em tudo que significou estar naquele consultório, em toda a estrada trilhada e some todos os minutos de estudo e de preparo. Se ainda assim não lhe convencer, escolha outro. Você também tem o poder de escolha. Não perca seu precioso tempo, nem o do médico ali na sua frente. Por preço, por conhecimento, por empatia. Qualquer motivo é válido se você o entende. Seja justo consigo mesmo.

 

Pense em todas as vezes que marcar uma consulta e não aparecer. Em todas as vezes que confirmar e chegar muito atrasado, sentindo-se só no seu direito de reclamar o atraso do doutor; pense em todas as vezes que exige um remédio ou até mesmo um exame que o seu médico julga desnecessário. Talvez você não perceba os tantos minutos que ele se dedicou para lhe falar o não.

 

Não compare saúde a educação, que neste país é a nossa outra vergonha. Os dois setores estão desamparados, cheios de politicagem, difícil de comparar. Pergunte se a “tia” da classe de seu filho ganha mais de 2000 reais ao mês, por meio dia de serviço. Você vai se surpreender, e se perguntará onde vai parar o dinheiro que paga naquela mensalidade…

 

Não escrevo hoje sobre valores éticos ou morais, porque isso é “pano pra manga” e conheço bem a minha raça. Há médicos de todos os preços, que se vendem por qualquer preço, mas isso é tema pra outro post. Há também pacientes de todos os preços e de todos os apreços aos que lhe assistem, eu bem sei.

 

Gostaria muito, neste próximo dia 18 de outubro, dia do médico, que o paciente repensasse seu verdadeiro valor. O médico só existe com o paciente. O paciente só existe com o médico. Esta relação é muito importante e muito séria.

O cobrar (e ser cobrado) em dinheiro ou atitudes faz parte dela.

 

Infelizmente, não cobrarei a manutenção mais baratinha, porque um paciente não é só UM diagnóstico. São vários. E o retorno, em qualquer lugar do mundo, é em 15 a 30 dias, no máximo. Depois, é nova consulta.

E você, que me fez a proposta inicial, cobra uma manutenção “baratinha”, para fazer mais um cômodo da obra que já foi planejada?

Garante a vida inteira que nunca mais a obra vai precisar de reparo?

 

O ser humano é uma obra que sempre precisa de reparos. Físicos e, principalmente, emocionais.

 

Salve o 18 de outubro, dia do médico que, garanto, não vai esquecer.

E que a saúde, neste país, ainda possa ser salva.


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